No dia 28 de fevereiro de 2026, os EUA e Israel lançaram um ataque coordenado ao Irão, um dos principais detentores de reservas de petróleo a nível mundial (o 4.º, segundo os últimos dados conhecidos). A escalada do conflito entre os EUA e o Irão, com impacto direto sobre um dos maiores detentores mundiais de reservas de petróleo, voltou a colocar em evidência a exposição das economias importadoras às variações dos mercados energéticos. Em Portugal, a dependência energética externa continua elevada, com os dados mais recentes da DGEG a apontarem para uma dependência energética de 64,1% em 2024, ainda acima do limiar de 65% definido como meta no PNEC 2030. No consumo final bruto de energia, as renováveis atingiram 36,3% em 2024, valor que confirma alguma resiliência, mas não elimina a exposição do país a choques externos.
Há setores que são diretamente afetados por essas flutuações, como os transportes, em que o consumo de energias não renováveis é superior a 85%, essencialmente de derivados de petróleo. Apesar de o setor representar pouco mais de 1% do PIB, é um setor de elevada relevância em termos de movimentação de pessoas e bens, numa economia cada vez mais globalizada e interconectada.
Com a ação bélica por parte dos EUA e de Israel sobre um dos maiores detentores de reservas de petróleo, e a consequente dificuldade na exportação por parte do Irão, a lei da oferta e da procura dita um aumento generalizado do preço do petróleo. O Brent, matéria-prima com futuros cotados em bolsa, disparou desde o início da guerra, passando de 69 dólares a 27 de fevereiro para 108 dólares a 2 de abril, ficando dependente das perspetivas quanto ao fim do conflito e ao restabelecimento normal das rotas comerciais.
Com este exemplo, percebemos naturalmente a subida de preços verificada nos combustíveis durante as últimas semanas. Isto impõe um grande desafio para as empresas de transportes, que precisam de acomodar esta flutuação de preços na sua margem. Numa empresa com margens reduzidas, qualquer aumento de custos representa uma diminuição temporária da margem, até que seja refletido no preço final ao cliente. Quanto mais tempo a empresa levar a atualizar a sua tabela de preços, mais tempo terá a sua margem reduzida ou até mesmo negativa, o que, numa empresa que não esteja financeiramente saudável, coloca em risco uma atividade que, em circunstâncias normais, seria rentável e sustentável.
Além disso, este aumento nos preços do transporte levará a um aumento generalizado dos preços ao longo da cadeia de valor, até chegar ao consumidor final. Com isto, perspetiva-se um aumento da inflação para o ano de 2026, o que, por si só, provocará outras consequências a nível financeiro para as empresas, como a atualização em alta das taxas de juro de referência indicadas pelo Banco Central Europeu.
Conforme noticiado pelo Diário de Notícias em 20 de março, o BCE pretende manter os juros em 2%, mas as circunstâncias económicas decorrentes da guerra EUA-Irão apontam para um aumento das taxas de juro. O BCE utiliza as taxas de juro para conter efeitos inflacionistas na economia, pelo que a subida generalizada de preços, resultante do aumento do preço dos combustíveis, perspetiva também uma subida das taxas de juro, como medida de arrefecimento da inflação. Tal tem ainda um efeito adverso para as empresas: além de acomodarem o aumento dos custos com combustíveis, terão também de suportar o aumento dos encargos com financiamento.
As empresas cuja margem de lucro já se encontre reduzida verão estes aumentos de custos, aliados à falta de uma almofada financeira capaz de resistir a períodos de adversidade, colocarem em risco a sua atividade operacional, podendo, a médio prazo, conduzir a incumprimentos de obrigações, caso não sejam tomadas medidas atempadas.
A solidez financeira de uma empresa é fundamental para acomodar flutuações nos mercados, sendo um bom indicador da sua sobrevivência. Para análise, a autonomia financeira constitui um indicador eficaz da solidez de uma empresa: quanto mais próximo de 100%, maior a sua robustez financeira.
O acompanhamento e aconselhamento financeiro profissional ajudarão, em grande medida, a administração de uma empresa a tomar decisões mais adequadas face aos desafios enfrentados.
Fontes
DGEG, Energia em Números, edição 2024:
https://www.dgeg.gov.pt/pt/destaques/energia-em-numeros-edicao-2024/
DGEG, Energia em números:
https://www.dgeg.gov.pt/pt/estatistica/energia/publicacoes/energia-em-numeros/
Trading Economics, Brent crude oil:
https://tradingeconomics.com/commodity/brent-crude-oil
Banco de Portugal, Indicadores da situação financeira das empresas portuguesas:
https://www.bportugal.pt/sites/default/files/anexos/papers/re201813_p.pdf
GEE, Estatísticas das Empresas da Central de Balanços:
https://www.gee.gov.pt/pt/indicadores-diarios/ultimos-indicadores/34820-estatisticas-das-empresas-da-central-de-balancos-banco-d
ECO, Autonomia financeira das empresas sobe para 45% no terceiro trimestre:
https://eco.sapo.pt/2025/01/03/autonomia-financeira-das-empresas-sobe-para-45-no-terceiro-trimestre/
Jornal Económico, Autonomia financeira das empresas cresce pelo nono trimestre consecutivo:
https://jornaleconomico.sapo.pt/noticias/autonomia-financeira-das-empresas-cresce-pelo-nono-trimestre-consecutivo-fixando-se-em-
J.P. Morgan Research, Oil Price Forecast for 2026:
https://www.jpmorgan.com/insights/global-research/commodities/oil-prices