O contexto de dezembro de 2025 mostra um cenário misto: depósitos a render menos, mas com montantes recorde, e crédito – sobretudo à habitação e às empresas – a crescer com taxas em descida, o que tem implicações diretas para famílias e negócios.
Depósitos: mais dinheiro parado, menos remuneração
A taxa de juro média dos novos depósitos a prazo de particulares desceu de 2,16% para 1,36% entre dezembro de 2024 e dezembro de 2025, uma redução de 0,80 pontos percentuais.
Apesar disso, o montante de novos depósitos a prazo de particulares atingiu 144,3 mil milhões de euros em 2025, o valor anual mais elevado desde 2003, com 95% concentrado em prazos até 1 ano.
Nas empresas, a taxa média baixou de 2,65% para 1,73%, mas os novos depósitos chegaram a 111,1 mil milhões de euros, também muito concentrados em prazos até 1 ano.
- Famílias e empresas estão a reforçar liquidez, mas a troco de uma remuneração bastante baixa.
- Vale a pena analisar se faz sentido manter tantos excedentes em depósitos de curto prazo ou procurar alternativas (amortização de dívida, investimento produtivo, produtos de poupança mais eficientes, consoante o perfil de risco).
Crédito a particulares: habitação em máximos, consumo ainda caro
As novas operações de crédito a particulares totalizaram 39,3 mil milhões de euros em 2025, o maior valor desde 2003.
Desses, 23,3 mil milhões foram novos contratos de crédito à habitação, o nível mais alto desde 2014, com forte peso de jovens até 35 anos (60% do montante para habitação própria permanente).
A taxa de juro média dos novos créditos à habitação desceu de 3,20% para 2,84%, colocando Portugal no grupo de países da área do euro com taxas mais baixas neste segmento.
Já no crédito ao consumo, a taxa média subiu ligeiramente, de 8,56% para 8,63%, mantendo-se muito elevada; nos “outros fins”, baixou de 3,85% para 3,43%.
- Para quem pondera comprar casa, o contexto combina algum alívio de taxa com forte procura, sobretudo entre jovens – o que pode pressionar preços de imóveis.
- Para quem já tem crédito, a queda da taxa média e o recuo das renegociações sugerem que muitos contratos já foram ajustados, mas ainda pode haver espaço para rever condições.
- No consumo, as taxas continuam pesadas: aqui, a prioridade deve ser controlar endividamento e evitar crédito caro para necessidades recorrentes.
Crédito a empresas: mais novos empréstimos, taxas a descer
As novas operações de empréstimos às empresas atingiram 29,9 mil milhões de euros em 2025, mais 3,24 mil milhões do que em 2024, com o crescimento concentrado em novos contratos (26,6 mil milhões) e menor peso de renegociações.
Houve aumento tanto em operações até 1 milhão de euros (típicas de PME) como acima desse valor.
A taxa de juro média dos novos empréstimos a empresas recuou de 4,30% para 3,70%, com descida semelhante em ambos os escalões de montante.
- O custo de financiamento está a aliviar, num contexto em que os bancos continuam ativos na concessão de crédito.
- É um momento oportuno para:
- Reavaliar financiamentos existentes e eventuais renegociações;
- Estruturar novos projetos de investimento, tirando partido de taxas mais baixas e dos incentivos disponíveis (como os avisos PT2030).
- Ao mesmo tempo, o aumento da dívida exige controlo: é crucial garantir que novos empréstimos financiam investimento gerador de valor e não apenas necessidades de tesouraria crónica.
Crédito à habitação: taxas mistas dominam, prestação média recua pouco
Em 2025, cerca de 72% das novas operações de crédito para habitação própria permanente foram contratadas a taxa mista (fixa num período inicial, depois variável).
A taxa média destes créditos a taxa mista desceu de 3,01% para 2,75%; a taxa variável baixou ainda mais, de 3,68% para 2,85%, enquanto a taxa fixa subiu para 3,61%.
A prestação média mensal do crédito à habitação caiu de 423 euros para 418 euros entre dezembro de 2024 e dezembro de 2025, uma redução modesta, parcialmente compensada pela entrada de novos contratos com prestações mais elevadas.
- A escolha entre taxa fixa, variável ou mista continua crítica. Num cenário de taxas em descida, muitos contratos variáveis tendem a aliviar, mas é importante avaliar o horizonte temporal e a sensibilidade da taxa de esforço a futuras subidas.
- O facto de a prestação média recuar pouco mostra que a folga criada por taxas mais baixas está a ser, em parte, “ocupada” por novos contratos mais elevados – um alerta para não esticar o orçamento familiar.
Que decisões tirar destes dados?
Para famílias:
- Rever a estrutura de poupança (excesso em depósitos com taxas baixas) e de dívida (habitação vs. consumo).
- Avaliar oportunidades de melhoria de condições de crédito, sem aumentar desnecessariamente o montante em dívida.
Para empresas:
- Aproveitar o contexto de taxas mais baixas para otimizar a estrutura de financiamento, mas sempre com foco em projetos com retorno claro.
- Usar a liquidez reforçada em depósitos para fortalecer balanços ou cofinanciar investimento apoiado por incentivos públicos.
Banco de Portugal, 04 de fevereiro de 2026
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