A avaliação do Fundo Monetário Internacional (FMI) ao sistema financeiro português, divulgada no final de junho no âmbito do Financial Sector Assessment Program (FSAP), concluiu que o setor bancário nacional permanece resiliente, recomendando, contudo, um reforço da supervisão macroprudencial e da monitorização de alguns riscos estruturais. Em declarações à PME Magazine, José Pedro Pais, partner da Capitalizar, reconhece que o setor bancário nacional permanece resiliente, mas alerta que as recomendações do FMI poderão traduzir-se num maior escrutínio na concessão de crédito, sobretudo às pequenas e médias empresas (PME).
José Pedro Pais explica que “não se trata de uma restrição generalizada ao crédito, mas de uma análise mais rigorosa”, acrescentando que o próprio relatório do FMI identifica duas vulnerabilidades relacionadas com “a exposição ao imobiliário residencial e à dívida soberana”
O relatório recomenda ainda reforçar a supervisão macroprudencial e a monitorização de riscos sistémicos. “Quando o supervisor aperta o enquadramento, os bancos tornam-se mais exigentes na concessão, sobretudo nos setores tidos como de maior risco”, afirma José Pedro Pais.
“O sistema tem capital e liquidez para financiar a economia. Quem sente primeiro esse rigor são as PME, que têm menos alternativas de financiamento e informação financeira menos estruturada do que as grandes empresas”, salienta.
Menos informação financeira, mais vulnerabilidade
Na perspetiva da Capitalizar, as empresas mais expostas a um eventual endurecimento dos critérios de avaliação serão aquelas que apresentam fragilidades financeiras ou maior dependência de garantias imobiliárias.
“Desde logo, as empresas que dependem de ativos imobiliários como garantia. Se o FMI aponta a exposição da banca ao imobiliário residencial, é natural que as avaliações desses ativos e as políticas de colateral fiquem mais conservadoras”, refere José Pedro Pais.
Além disso, alerta que as empresas com informação financeira pouco robusta poderão enfrentar maiores dificuldades no acesso ao crédito.”As empresas com contas desatualizadas, reporte pouco fiável, ausência de um plano de negócios credível serão igualmente mais penalizadas. O banco passa a exigir mais e mais depressa, e quem não tem a casa em ordem fica de fora ou paga mais caro.”
O partner da Capitalizar acrescenta que também “as empresas muito alavancadas, com pouca liquidez e capitais próprios reduzidos, bem como as que operam em setores sensíveis ao ciclo económico”, poderão ser mais afetadas, sublinhando, contudo, que “não é o setor por si só que decide, é a solidez de cada projeto”.
“Preparação é essencial”
Perante este cenário, a Capitalizar recomenda que as PME reforcem desde já a sua posição financeira e diversifiquem as fontes de financiamento.
José Pedro Pais afirma que é necessário “reforçar a liquidez e os capitais próprios, para não chegar a uma negociação com o banco numa posição de fraqueza”. Além disso, aconselha ainda a “diversificar as fontes de financiamento e não depender apenas do crédito bancário: factoring, incentivos, capital, mercado de dívida onde faça sentido.”
O partner da Capitalizar defende ainda que as empresas devem encarar a informação financeira como um fator estratégico. “Tratar a informação financeira como um ativo: contas em dia, reporte fiável e projetos bem fundamentados são hoje o que separa uma aprovação de uma recusa.”
Por fim, sublinha a importância da antecipação. “Quem espera pela recusa da linha de crédito para agir já perdeu margem de manobra (…). A avaliação do FMI é positiva, mas não elimina riscos. Quem responder melhor será quem antecipar as mudanças e reforçar a capacidade financeira”, remata.
A PME Magazine contactou o Banco de Portugal para comentar a interpretação da Capitalizar, mas não obteve resposta até ao fecho desta edição.
PME Magazine, 17 de Julho de 2026