Publicado pela equipa Capitalizar | Junho 2026
O Banco de Portugal publicou em junho de 2026 o seu Boletim Económico com uma análise detalhada sobre o papel dos intermediários de crédito no mercado de crédito aos consumidores. Os dados são reveladores — e têm implicações diretas para qualquer empresa ou particular que esteja a considerar financiamento.
Na Capitalizar, lemos estes documentos de forma sistemática para poder traduzir o que dizem para a realidade dos nossos clientes. Aqui está o que consideramos mais importante saber.
O que é, afinal, um intermediário de crédito?
Um intermediário de crédito é o agente que faz a ligação entre quem precisa de financiamento e as instituições financeiras que o concedem. Não concede crédito diretamente — apresenta propostas, recolhe documentação, explica condições e, em alguns casos, pode assinar contratos em nome do banco.
Existem três tipos:
A título acessório — tipicamente uma empresa que vende um bem (um automóvel, um eletrodoméstico) e facilita o crédito associado à compra. É remunerado pelo banco, não pelo cliente.
Vinculado — trabalha com um conjunto definido de instituições financeiras, em nome e sob responsabilidade destas. Também remunerado pelo banco.
Não vinculado — atua de forma independente, sem contrato com nenhuma instituição. É o único tipo remunerado diretamente pelo consumidor, o que cria um alinhamento de incentivos diferente.
Em Portugal, no final de 2025, existiam 4 835 intermediários registados — um número que tem crescido de forma constante desde a entrada em vigor do Regime Jurídico dos Intermediários de Crédito (RJIC) em 2018. A esmagadora maioria (76,5%) opera a título acessório, sendo o comércio automóvel o setor dominante.
Os números que surpreendem
O Boletim revela que em 2025 51% do crédito aos consumidores e 56% do crédito à habitação foram comercializados com a intervenção de um intermediário. Ou seja: mais de metade do crédito contratado em Portugal passou por um intermediário em alguma fase do processo.
No crédito automóvel, esse peso ultrapassa 80%. No crédito pessoal, ronda os 20% — mas tem vindo a crescer.
Quem recorre a intermediários — e o que isso significa
Este é o dado mais relevante do relatório para quem trabalha em consultoria financeira.
O Banco de Portugal analisou o perfil dos mutuários que recorrem a intermediários versus os que vão diretamente ao banco, e o padrão é consistente: os clientes de intermediários tendem a ser mais velhos, com menor escolaridade e menor rendimento do que os que contratam diretamente na instituição.
Entre os reformados que contratam crédito pessoal através de intermediários, 24% dos montantes destinam-se a despesas de saúde e 44% a finalidades relacionadas com a casa. São pessoas que recorrem ao intermediário precisamente porque o processo de ir ao banco, comparar propostas e perceber a documentação lhes é mais difícil ou custoso.
Isto confirma algo que os dados internacionais também mostram: os intermediários de crédito cumprem um papel real de inclusão financeira — tornam o crédito acessível a quem de outra forma teria mais dificuldade em chegar às instituições financeiras. Mas esse papel tem um custo.
O custo da conveniência: +1,2 pontos percentuais na TAEG
Para o crédito pessoal, o Banco de Portugal estimou que empréstimos semelhantes, concedidos a mutuários semelhantes, apresentam uma TAEG (taxa anual de encargos efetiva global) em média 1,2 pontos percentuais acima quando contratados via intermediário face à contratação direta.
No crédito automóvel, essa diferença não é estatisticamente significativa.
O que explica a diferença no crédito pessoal? Essencialmente, dois fatores:
- O custo da procura — o consumidor paga, implicitamente, por não ter de ir comparar propostas em vários balcões. A conveniência tem preço.
- O perfil de risco — os mutuários que recorrem a intermediários podem ter características não observáveis que justifiquem taxas ligeiramente mais altas.
O Banco de Portugal é prudente na interpretação: estes resultados indicam uma associação, não uma causalidade. Mas o sinal é claro — quem tem menor literacia financeira paga, em média, mais pelo crédito.
O que isto significa para as PME
As empresas também recorrem a intermediários de crédito, embora o estudo do Banco de Portugal se centre no crédito aos consumidores. Os mecanismos são análogos: um intermediário pode simplificar o processo de acesso ao financiamento, mas essa simplificação tem um custo — visível ou invisível.
A questão não é “devo ou não usar um intermediário?”. A questão é: estou a tomar a decisão com informação suficiente?
Alguns cenários onde o intermediário acrescenta valor real:
- Empresas sem acesso a redes bancárias em zonas menos servidas por agências
- Processos de financiamento complexos onde a coordenação com múltiplas instituições é trabalhosa
- Primeiros financiamentos onde a empresa não tem histórico de crédito estabelecido
Cenários onde vale a pena ir diretamente às instituições (com assessoria técnica):
- Quando a empresa tem uma relação bancária estabelecida e poder negocial
- Quando os montantes são significativos e 1,2 pp representa um custo material ao longo do prazo do empréstimo
- Quando existe tempo e capacidade técnica para comparar propostas de forma estruturada
A perspetiva Capitalizar
O estudo do Banco de Portugal termina com uma conclusão que subscrevemos inteiramente: “Os resultados apontam para a importância da transparência no mercado e da formação em literacia financeira para garantir o acesso equitativo dos mutuários ao crédito.”
O nosso trabalho é precisamente esse — garantir que os nossos clientes tomam decisões de financiamento com informação completa, independente e orientada para os seus objetivos. Não somos intermediários de crédito. Somos consultores financeiros, e a diferença é material: os nossos incentivos estão alinhados com o interesse do cliente, não com a instituição financeira que remunera a operação.
Este artigo foi elaborado com base no Boletim Económico do Banco de Portugal de junho de 2026, “Políticas em análise: Os intermediários de crédito no crédito aos consumidores”. Destina-se a fins informativos gerais e não constitui aconselhamento financeiro personalizado.
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