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PER: quando a recuperação empresarial cria valor para investidores e credores

Nos últimos dias foi amplamente noticiada a intenção do Grupo Nabeiro/Delta Cafés de adquirir a Mocoffee, empresa portuguesa especializada na produção de cápsulas de café, que atravessa um Processo Especial de Revitalização (PER). A operação, que surge num contexto de um passivo superior a 23 milhões de euros e da necessidade de novo financiamento, constitui um excelente exemplo de uma realidade frequentemente esquecida: uma empresa em dificuldade financeira não é necessariamente uma empresa sem valor.

Em Portugal continua a existir a perceção de que recorrer a um PER representa o início do fim de uma empresa. Contudo, essa visão está longe da realidade.

Na prática, os mecanismos de reestruturação empresarial foram concebidos precisamente para evitar a destruição de empresas economicamente viáveis que enfrentam dificuldades essencialmente financeiras. O objetivo não é proteger uma empresa inviável, mas criar condições para que ativos produtivos, postos de trabalho, conhecimento técnico e relações comerciais possam ser preservados.

É precisamente isso que este caso demonstra. A Mocoffee não deixou de possuir uma unidade industrial moderna, capacidade produtiva instalada, clientes internacionais e know-how acumulado ao longo de décadas. O problema residia na incapacidade de acomodar uma estrutura financeira excessivamente pesada e responder às necessidades imediatas de liquidez. Nestas circunstâncias, a entrada de um investidor estratégico tornou-se a solução capaz de conciliar os interesses da empresa, dos trabalhadores e dos credores.

Os processos de reestruturação não servem apenas para renegociar dívida. Servem igualmente para criar um enquadramento jurídico que permita a entrada de novos investidores, assegurar financiamento adicional, reorganizar a estrutura de capitais e devolver confiança ao mercado.

Para um investidor, adquirir uma empresa durante um processo de revitalização pode representar uma oportunidade particularmente interessante. A empresa já possui instalações, equipamentos, trabalhadores qualificados, carteira de clientes e uma posição consolidada no mercado. Em muitos casos, o investimento necessário para recuperar uma estrutura existente é substancialmente inferior ao custo de desenvolver uma operação equivalente de raiz.

Do ponto de vista dos credores, a lógica também é distinta daquela que normalmente se imagina. Embora um plano de recuperação possa implicar reestruturações de dívida, alargamentos de prazos ou até reduções parciais de créditos, importa comparar essa solução com o cenário alternativo. Em muitos processos de liquidação, a recuperação efetiva dos créditos revela-se reduzida e pode demorar vários anos. Quando existe um investidor disposto a aportar capital e assegurar a continuidade da atividade, a recuperação global tende frequentemente a ser superior àquela que resultaria da insolvência da empresa.

Também para a economia nacional estas operações assumem uma importância significativa. Cada empresa que continua a operar representa postos de trabalho preservados, fornecedores que mantêm atividade, receitas fiscais futuras e capacidade produtiva que permanece em Portugal. A destruição de empresas viáveis gera frequentemente custos económicos e sociais muito superiores aos esforços exigidos para a sua recuperação.

Naturalmente, nem todas as empresas são recuperáveis. Os mecanismos de reestruturação apenas fazem sentido quando existe um modelo de negócio viável, uma atividade com potencial de continuidade e um plano de recuperação financeiramente credível. A viabilidade económica continua a ser o elemento determinante para o sucesso de qualquer processo.

O caso recentemente divulgado demonstra precisamente esta realidade: quando existe uma empresa com valor operacional, um plano consistente e um investidor capaz de aportar capital e confiança, a reestruturação deixa de ser apenas um instrumento de gestão da dívida para se transformar numa verdadeira operação de criação de valor para todas as partes envolvidas.

Mais do que uma notícia sobre a aquisição de uma empresa do setor do café, este é um exemplo de como os instrumentos de recuperação empresarial podem constituir um fator decisivo para preservar empresas viáveis, proteger o tecido económico e criar oportunidades de investimento que dificilmente existiriam fora de um contexto de reestruturação.

Nota Capitalizar

Na Capitalizar acompanhamos processos de reestruturação financeira e apoiamos empresas e investidores a avaliar as oportunidades e os riscos associados a operações de revitalização. Se a sua empresa enfrenta dificuldades financeiras ou se é investidor a analisar uma oportunidade deste tipo, fale connosco.

Fontes:
ECO — Delta ‘resgata’ produtora de cápsulas de café com dívidas de 23 milhões
ECO — Delta injeta 3 milhões e só paga 36% das dívidas para salvar produtor de cápsulas de café
Jornal Económico — Delta avança para compra de empresa de cápsulas de café

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